#2 – Histórias, estórias, e cenas do género

We’re all made of stories. When they finally put us underground, the stories are what will go on., Charles de Lint

There is no greater agony than bearing an untold story inside you., Maya Angelou

After nourishment, shelter and companionship, stories are the thing we need most in the world., Philip Pullman

Cenas e Coisas_2Somos todos feitos de histórias. É a forma que temos de dar sentido à vida, e de compreender e explicar o mundo. Mitologias e cosmogonias são histórias que criamos para explicar como o mundo nasceu, como os fenómenos naturais apareceram e para quê, de onde vimos. Filosofias e ideologias enformam a nossa perspectiva sobre uma sociedade e sobre o nosso papel nela. Religiões e teorias científicas são apenas histórias que procuram dar resposta às nossas dúvidas e confortar os nossos medos. E a forma como nos vemos, como olhamos para o nosso percurso e para quem somos, é também uma história que contamos sobre nós próprios e a nós próprios. Ou que tentamos não contar.

Quando olho para trás e tento olhar para a frente do que tem sido a Amarelo Torrado e a minha vida em geral, não gosto especialmente da história que desenho e que parece desenhar-se. Por vezes (ou muitas vezes) tenho dificuldade em discernir o fio condutor que liga os vários episódios, dificuldade em articular o princípio, o meio e o fim. O princípio que foi, o meio que tem sido, e o fim que quero que seja. Quer dizer… Não tenhamos ilusões. Nada disto é linear, arrumado, estanque, como episódios numerados de um livro ou entradas num dicionário ou numa enciclopédia, paginados e com um índice. Tenho coisas de que me orgulhar, claro, mas a insatisfação está lá, e a vontade de mudar alguma coisa também.

Não me vou pôr com grandes divaganços intimistas, até porque se há coisa que importa é perceber e identificar o que está ao nosso alcance mudar ou não. Não sou adepta daquelas ondas de psicologia positiva do “be all you can be”, e do “Segredo”, e de como atraímos coisas boas apenas com a força do pensamento. Suspeito que muito do mal-estar que possa envolver esta coisa de “ser humano”, reside precisamente na nossa incapacidade de aceitar o vulneráveis que somos, e o pouco que podemos controlar e realmente conhecer. Aceitar as nossas limitações e o caos e a falta de sentido que parece governar o que nos rodeia e a nós próprios, será talvez uma das competências essenciais que é suposto cultivarmos enquanto cá estamos. Talvez seja esse um dos sentidos da vida: aprender a lidar com o acaso e com a nossa falta de controle, sem deixar que nos paralise.

Divaganços e filosofices à parte, o que importa para o caso é que chega um momento, ou vão chegando vários, em que temos que reler a nossa história, e tentar perceber o que queremos que ela seja. Parar para pensar e retomar o caminho com mais fôlego e propósito. Com a consciência de que não controlamos os resultados, que o sentido do que fazemos ou deixamos de fazer  a cada momento não pode depender dos resultados, e que as nossas circunstâncias podem mudar a qualquer momento sem nossa permissão, mas que depende muito de nós a forma como lidamos com tudo isso.

O Cenas & Coisas é também uma forma de tentar contar uma história passada, e, ao mesmo tempo, de reflectir e trabalhar sobre a história que quero contar daqui para a frente, um pouco como um autor de romances observa o que o rodeia e reflecte sobre si mesmo para se inspirar, faz pesquisa sobre sei lá quantos temas para construir cenários, personagens, acontecimentos, e utiliza sei lá que estratégias e métodos para criar uma história. O objectivo aqui não é trabalhar sobre a minha história pessoal, mas sobre uma história específica que neste momento ainda não sei bem que forma vai assumir, embora tenha uma ideia. De forma muito sintética, podia reduzir esta história à criação e desenvolvimento de um projecto de negócio meu. Mas, naturalmente, esta é uma história feita de muitos enredos, de muitos elementos, que estão muito para lá de um simples projecto. São esses enredos e esses elementos, essas dimensões sobre as quais tenho que trabalhar, os aspectos que têm que passar por uma autêntica metamorfose, que são a razão de ser deste blog. Estão na sua génese, e são o objecto de que ele trata.

Pode parecer estranho eu fazê-lo desta forma, mas se me conhecessem como eu me conheço, percebiam que preciso de o fazer assim. Com um método talvez radical, mas que me permite e me obriga a colocar pontos nos i’s e traços nos t’s, e também a treinar o músculo da coragem. Já pesquisei muita coisa, já acumulei muita informação (provavelmente demasiada), já li muitas histórias, e chegou a altura de, preparada ou não, sair do lado do observador, deixar-me de teorias e de fases preparatórias, para o lado do actor no sentido daquele que age. Fazer. Por mais que tenha procurado (e procurei muito!), não encontrei um livro de instruções com os passos todos arrumadinhos e à minha medida. Chega uma altura em que temos apenas que fazer, arriscar, experimentar, mesmo sem saber bem como. Tudo isto é também um processo de auto-conhecimento, e já passei pela fase de identificar quem tenho sido – porque quem somos não é tanto quem julgamos ser ou quem queremos ser, mas o que fazemos no dia-a-dia. E a minha intenção é aproximar uma coisa da outra. Agir cada vez mais como a pessoa que quero ser e que sinto que sou mas que tem estado escondida por trás de medos. Estranhamente, existe algum conforto no que nos é familiar mesmo que não seja motivo de orgulho, não nos traga satisfação e um sentido de realização, pelo contrário. A mudança é desconfortável e assustadora, mesmo que positiva. É estranho, não é? Somos estranhos, não somos? Ou serei só eu que sou…?

Adiante. Isto tudo para dizer que um dos temas que vou abordar por aqui diz respeito às estratégias que tenho usado para alterar comportamentos, mudar hábitos, e transformar a minha atitude perante… tudo, sobretudo no que diz respeito à vida que quero construir, aos sonhos a que quero dar forma, um passinho de cada vez, ou dois ou três. Mas isso é uma cena que fica para o #3 e para o que vier a seguir.

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