#3 – Um hábito de cada vez

Nós somos o que fazemos repetidamente. A excelência, portanto, não é um acto, mas um hábito., Aristóteles

Cenas e Coisas_3Se o ser humano é uma criatura de hábitos, eu sou uma criatura de maus hábitos. E um dos meus maus hábitos, é o de os tomar como dados adquiridos, o de me agarrar a eles como a um peluche predilecto quando se é criança, e de cair no vício de deixar para amanhã começar a mudá-los. O resultado é óbvio: como dizia a Janis Joplin, “o amanhã nunca chega”, e os hábitos nunca mudam.

Os hábitos, i.e., a face mais visível do que somos, manifestam-se de várias formas, e uma delas é a linguagem. Não necessariamente a linguagem que usamos quando falamos com os outros, mas sobretudo, e é essa que me importa aqui, a linguagem com que falamos com nós mesmos e contamos histórias a nós mesmos. Um pouco à semelhança das pessoas que têm vícios de linguagem, como terminar todas as frases com um “pá”, eu tenho o de usar constantemente expressões como “quando”, “um dia”, “mas”, “no entanto”, “se”; de conjugar os verbos no modo conjuntivo ou no modo condicional; e, claro, o de usar muitas reticências. As palavras têm poder. Têm um poder criativo e destrutivo. Elas dão forma, realizam, concretizam, materializam. E as que tenho usado têm sido ao mesmo tempo causa e consequência de uma história repetitiva que já estou farta de ouvir. De contar a mim mesma.

Um dos elementos fundamentais para quem quer criar uma marca ou um negócio, por maior ou menor que seja, e em que toda a gente que percebe um pouco que seja disto insiste, é a história que queremos contar. Que história é essa, como é que a comunicamos, que tom usamos, como queremos que as pessoas a oiçam e entendam. Esta é a base que vai guiar o desenvolvimento de um produto, a criação de um logótipo, a construção de um website, a identificação do cliente ideal, a definição do copy que se usa para comunicar com o público-alvo, o estilo das imagens e fotografias que se partilham. Tudo.

Mas antes de pensar e estruturar a história que quero contar em relação a um projecto muito concreto, tenho que o fazer em relação à minha própria história e à forma como levo os meus dias, como me levo ao longo dos dias. E, para isso, preciso de fazer um trabalho de destralhamento. Esta é uma das palavras-chave para mim nos últimos tempos/anos: destralhar a casa, destralhar o meu roupeiro, destralhar o meu cérebro. E exige disciplina.

Sempre me vi como uma pessoa pouco disciplinada, caótica, pouco dada ao cumprimento de rotinas, pelo menos de rotinas que implicam auto-controle e uma atitude intencional. Olhando para trás, percebo e reconheço que me tenho definido a mim mesma desta forma como se estes elementos fossem parte da minha identidade, indissociáveis de mim mesma. E, arrisco dizer, usando isto mesmo como desculpa para não fazer mudanças ou, aliás, para nem sequer tentar fazê-las. Não serão mais do que desculpas, porque maior do que o medo de perder identidade, como se essa fosse uma identidade que valesse a pena cultivar, é o medo de falhar. E na realidade, para ser cada vez mais eu própria, não o “eu própria do costume”, mas um eu própria de que me orgulhe, tenho que fazer um esforço consciente, intencional, para modificar os comportamentos habituais, as rotinas e os hábitos e os vícios que têm definido quem sou, mas com os quais cada vez me identifico menos.

Quanto mais tempo um hábito tem, mais difícil se torna alterá-lo, mas o tempo não pára, não espera, não se guarda para depois, e se ontem já era tarde para começar, hoje ainda vou a tempo. Sou dura comigo própria, eu sei, mas a bem da minha sanidade mental e de alguma serenidade que sei que transpareço para algumas pessoas, mas que nem sempre é real (ou raras vezes o é…), tenho também consciência que devo dar algum desconto a mim própria, e dar a mim mesma o benefício da dúvida. Ser bondosa comigo mesma. Ser exigente mas não demasiado. É um equilíbrio difícil aquele que devo manter entre o ser exigente e o ser condescendente comigo própria. E é difícil também ter paciência e saber que não posso fazer tudo de uma só vez. O lema “uma coisa de cada vez, ou duas ou três”, vem aliás muito daqui, da minha tendência para me deixar engolir pela vontade de fazer mil coisas ao mesmo tempo, e em simultâneo deixar-me paralisar pela consciência disso ser impossível, e ficar sem saber por onde começar. E tenho muito por onde começar.

Como forma de exercitar também a minha capacidade de dar alguma coisa por terminada, e de dividir as tarefas por blocos, estes “inícios” ficam para as próximas Cenas & Coisas. No #4 falo de algumas das estratégias que tenho usado para alterar rotinas, e para criar rituais que trazem alguma ordem ao meu caos, sem eliminarem o espaço para o caos criativo que vale a pena manter.

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