#4 – Um hábito de cada vez – Morning Pages

“Late at night have you experienced a vision of the person you might become, the work you could accomplish, the realized being you were meant to be? Are you a writer who doesn’t write, a painter who doesn’t paint, an entrepreneur who never starts a venture? Then you know what Resistance is.”
Steven Pressfield*

Cenas e Coisas_4A propósito de mudar hábitos, vou começar pelas boas notícias. Ou, aliás, fazer um intervalo nas “más” [eu e as aspas… mas falo delas noutra altura]. Se a vossa resposta à questão colocada na citação acima é sim, então suspeito que vão identificar-se,  um bocadinho que seja, com o que escrevo aqui.

No dia 15 de Março, enchi-me de coragem, e sem pensar muito (mais do que o necessário), dei por mim a escrever as primeiras três páginas de Morning Pages. Já tinha ouvido falar neste “exercício” há algum tempo por diversas vias: blogs de crafters e makers, comentários e artigos de adept@s do bullet journal, e inclusive uma amiga que me recomendou ler o livro da autora Julia Cameron, The Artist’s Way (1995).

Não li o livro (ainda), mas graças aos meus poderes mágicos de pesquisa, encontrei um resumo da ideia online, li, e pensei “eu consigo fazer isto… eu preciso de fazer isto (ou algo do género)”. A Primavera é uma época muito propícia a começos e recomeços, e decidi dedicar a este empreendimento o que eu esperava ser apenas o primeiro caderno, um que tinha feito para compor a minha nova capa de feltro – a.k.a. depósito-de-ideias-na-forma-de-papel,-  e que ainda não tinha função atribuída se não a de ocupar espaço.

Uma das coisas que a autora recomenda, para começar da melhor forma, é assinar o contrato* de forma ritualizada. Isto confere ao acto alguma solenidade, aumentando as hipóteses de ser cumprido. E foi o que fiz: no dia seguinte, peguei em mim própria e fui até à Gulbenkian, ao meu cantinho mágico, rodeada de verdes de todas as cores e por todo o lado, o mais isolada e sossegada possível, reli o contrato e assinei-o.

No dia anterior, tinha escrito a minha própria versão traduzida do original na primeira página do dito caderno, com a melhor letra possível, o que me obrigou a fazê-lo com calma, com atenção e intenção. Apontei também as “regras” das Morning Pages, como forma de materializar ainda mais o compromisso de cumprir o curso sem (grandes) desvios nem cedências. Em resumo, o compromisso encerrado no contrato e nas “regras” consiste em:

  •  todas as manhãs, escrever 3 páginas à mão, ao ritmo do pensamento, de forma fluida e quase instintiva, sem preparação e com o mínimo de hesitações;
  • fazê-lo sem filtros, sem me preocupar com o julgamento alheio nem com o meu próprio, escrever como se fossemos um amigo que nos diz aquilo que não queremos ouvir, muito menos ler;
  • relacionado com o ponto anterior, tratar de manter o caderno fora do alcance de olhares indiscretos, como se fosse um daqueles diários adolescentes com cadeado, e eu própria coibir-me de reler o que escrevo se não passadas 8 semanas;
  • fazer isto religiosamente, todos os dias, durante 12 semanas.

As “regras” originais são mais restritas do que as que adoptei. É suposto ser a primeira coisa que faço quando acordo, por exemplo, e fazê-lo sozinha, isolada, sem distracções. Como o essencial, para mim, é cumprir o compromisso de forma a torná-lo um ritual pessoal, tive que fazer algumas alterações para adaptar a coisa às minhas circunstâncias e forma de estar (quero fazer mudanças mas não quero ser outra pessoa, atenção). Assim, escrevo as três páginas todos os dias, na viagem de comboio até Lisboa. São cerca de 40 minutos de caminho, e à volta de 30 minutos a escrever ininterruptamente, ao ponto de ficar com os dedos entorpecidos, embora isto esteja a melhorar com a prática. O ambiente do comboio suburbano para Lisboa não é propriamente tranquilo, mas como tenho a capacidade de me isolar no meu próprio mundo mesmo no meio de uma multidão, serve perfeitamente. É como se não estivesse “ali”. Além do mais, o que faço assim que acordo é outro conjunto de hábitos que estou a cultivar. Mas isso… fica para outro #.

Hoje escrevi pelo 43º dia consecutivo mas, pela primeira vez, não escrevi no horário previsto. Escrevi apenas à noite quando cheguei a casa. Isto porque me esqueci de colocar a caneta na tal capa, e guardei-a num estojo que anda sempre comigo mas estava fora do sítio habitual. É curioso como ganhamos pequenos hábitos, pequenos automatismos, e basta um pequeno desvio para alterar tudo o resto. Como a história das asas da borboleta provocam tsunamis, mas a uma escala microcósmica. E isto é verdade para os maus hábitos e para os bons: basta bater as asas, e fazer o esforço de as manter em movimento por breves instantes, para depois ganharem vida própria e nos levarem não sabemos bem onde. No caso dos maus, e falo por experiência própria, acabamos por voar em círculos, sem sair do mesmo lugar; no caso dos bons, não sei bem onde vou parar, mas estou desejosa de descobrir.

Este incidente, aparentemente negativo, serviu para retirar algumas conclusões positivas: o facto de me ter perturbado, significa que de alguma forma já interiorizei o ritual ao ponto de sentir falta dele, e de não me ocorrer sequer não escrever as páginas. Serviu também para perceber, ou confirmar na prática, como, afinal, não sou imune aos benefícios da rotina. Logo eu, que adoro padrões, não podia ser completamente incompatível com a ideia da repetição e da estrutura que uma rotina implica e permite criar. Nada como um pouco de ordem para dar sentido ao caos, torná-lo mais consequente e menos indutor de ansiedade. E serviu ainda para escrever grande parte deste texto que estou agora a terminar. Só vantagens, portanto. (Mas que não se repita, Ana Catarina!)

Escrever à mão é um dos elementos fundamentais do exercício das Morning Pages. Faz toda a diferença. Sobre os benefícios da escrita à mão hei-de também dedicar um texto, ou mais, ao assunto. Aqui importa só registar, caso alguém queira embarcar no desafio, e caia na tentação de achar que pode fazê-lo ao teclado de um computador sem perder grande coisa pelo caminho, que não. Escrever à mão é fundamental. Como se escreve, o que se escreve, o ritmo a que se escreve, é muito mais pessoal e fluido e intimista e genuíno, do que com um teclado e um monitor. A ligação que estabelecemos com o que estamos a fazer e com nós próprios, é muito mais orgânica. É mais natural, até. Mais instintiva.

Apesar de ainda não ter lido o livro onde apresenta o conceito, a Julia Cameron criou as Morning Pages a pensar sobretudo nos artistas. Escritores, pintores, pessoas que fazem da criatividade o seu ofício, e que usam o exercício para desbloqueá-la, para vencer a “página em branco”. Mas o conceito “pegou” e faz sentido para todas as pessoas: todos nós temos um lado criativo por mais que o tentemos negar ou apagar ou subvalorizar. Todos somos criativos de alguma forma, seja no modo como olhamos para um problema, como fazemos uma refeição, ou como falamos com família, amigos, desconhecidos. É a natureza humana. Para qualquer pessoa, as Morning Pages podem trazer alguma coisa de positiva e construtiva. Não é preciso saber escrever sequer para adoptar o ritual. Aliás, convém que as páginas sejam escritas sem qualquer preocupação com virem a ser lidas, nem sequer por nós próprios. Mas têm a vantagem de, se gostarem de escrever como eu gosto, seja para consumo próprio ou não, esta ser uma excelente forma de praticarem. Melhorar seja no que for é uma questão de prática, de exercitar músculos porque eles, como o cérebro, têm memória.

Eu ainda estou muito no início. De um total de 252 páginas, ainda só escrevi 129. […pausa cinematográfica para efeito dramático…] Já escrevi 129… Já escrevi 129…?! Chiça penico. Pronto. Escrevi cerca de metade do mínimo estabelecido, mas suspeito que vou escrever muito mais, se não três todos os dias, então à volta disso. Ainda é cedo para perceber tudo o que este exercício me vai trazer. Que “insights”, conclusões, reflexões, me vai permitir fazer. O que é que vai desbloquear ou não, se alguma coisa. Mas há duas coisas positivas, preciosas até, que já consegui com o processo:

  • a possibilidade de despejar o caos mental à vontade, mas com algumas balizas, i.e., as três páginas: é um escape, um exercício que me acalma ao dar-me liberdade q.b. de forma a não se tornar ele próprio uma fonte de stress;
  • a consciência de ser capaz de cumprir um compromisso que assumi comigo própria, todos os dias, religiosamente: só isto já é uma vitória gigante para mim, um autêntico acontecimento.
Se pesquisarem por “Julia Cameron”, “Morning Pages” ou “The Artist’s Way”, não vão faltar recursos, artigos, notícias, para começar a explorar a ideia, além, é claro, do website da própria da Julia. Como eu estou numa espécie de dieta [assunto para outro #] a este nível, refiro apenas o que li mais recentemente, e que é de um dos poucos blogs que faz parte do número restrito de “alimentos” que posso consumir: «What are Morning Pages? How One New Habit Changed My Life», da Shelby Abrahamsen / Little Coffee Fox. E vá… partilho também o que é mesmo o mais recente de todos, mas foi uma facadinha na dieta porque… pronto, foi mais forte do que eu: «3 Pages Every Morning: Why I Started a Daily Ritual and How I Stuck With It», do Matthew Trinetti.
Agora, é pegar na caneta e no papel e experimentar. Acreditem que o que mais custa é começar, é decidir bater as asas como a borboleta para vencer A Resistência*. Em relação à prática de escrita que se ganha, logo vejo se melhoro realmente, mas até lá… vou praticando por aqui, uma página virtual de cada vez, ou duas ou três. E desse lado, têm algum ritual de escrita ou sem ser de escrita que queiram partilhar com a je?
*Note-to-self: pesquisar Steven Pressfield, autor de The War of Art onde fala d’A Resistência, e onde se encontra a citação com que comecei este texto e que copiei do artigo de Matthew Trinetti. Looks interesting!
Anúncios

One thought on “#4 – Um hábito de cada vez – Morning Pages

  1. Pingback: #13 – Morning Pages: um hábito com prazo de validade. Uma espécie de balanço. | Cenas & Coisas

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s