#5 – Um hábito de cada vez – Bullet Journal

Cenas&Coisas_5A Resistência, esse boi que é chamado pelo nome por Steven Pressfield no seu The War of Art, e de que cito um excerto no #4, começa em nós mesmos. Ou reduz-se à nossa própria resistência: resistência à mudança, ao risco, à tomada de decisões, à escolha do “menos-que-perfeito”, à fatalidade de termos que aceitar o “menos-que-perfeito”, à necessidade de ultrapassarmos inseguranças e deixarmos as hesitações para trás.

Esta resistência, onde tudo acaba e tudo começa, não será mais do que medo. De tudo isto e de nós próprios e do futuro. É um medo meio disforme e irracional, um medo que paralisa e nos impede de tentar, de arriscar, de aceitar a possibilidade de falharmos, de sermos insuficientes, de não termos tempo suficiente para aprender tudo o que queremos e sentimos precisar de aprender, medo de lidar com o hipotético julgamento dos outros, e com o julgamento muito real que fazemos de nós próprios.

Suspeito que isto se reduz a um excesso de consciência de nós próprios, das nossas limitações, dos obstáculos e dificuldades, do mundo, do imprevisto e do acaso, consciência da nossa vulnerabilidade e da falta de controle real que temos sobre os acontecimentos. Por algum motivo, olhamos para quem é destemido como se fosse alguém inconsciente. Mas não o é, não necessariamente. É, talvez, apenas alguém que é consciente, isso sim, da falta de sentido em deixar de fazer seja o que for com receio dos resultados, é alguém que não se deixa paralisar pelo imprevisível e por aquilo que foge ao seu controle, e escolhe antes prender-se ao presente, ao que está ao seu alcance, em vez de ficar amarrado a um futuro que não existe.

No fundo, se calhar somos apenas pessimistas, por mais que pensemos que não o somos. Somos optimistas e destemidos em relação aos outros, para os outros, no que toca aos empreendimentos dos outros. Mas em relação a nós, nem tanto: esperamos o pior, queremos estar preparados para o pior, e deixamos para segundo plano estar preparados para a eventualidade do melhor. Mas é como diz aquele provérbio zen (acho eu): Se o problema não tem solução, porquê preocupares-te? Se o problema tem solução, porquê preocupares-te?

∞ ∞ ∞

Podia continuar a divagar sem destino nem fim à vista, mas vou poupar-nos a todos – é melhor administrar a coisa em doses pequenas. Voltemos ao início: a Resistência.

Sempre resisti à ideia de utilizar uma agenda. É uma espécie de bicho-papão. Olhar para aquela amálgama de páginas com dias da semana e do mês, linhas impressas a dividir o espaço e o tempo com dimensões precisas e homogéneas, títulos e separadores pré-definidos e standardizados, é como olhar para a ponta da faca que se aproxima da Vivien Leigh no duche, no filme Psycho, com direito a banda sonora e tudo. É estranho, um misto de repulsa e medo e atracção e inveja por quem usa uma agenda, quase como se fosse um alien, um ser estranho, alguém que não gosta de chocolate, por exemplo. É um pouco a mesma relação que se tem com as imagens de super-modelos: “uau, devia ser proibido, quem me dera ser tão organizada, e ter tanto autocontrole, mas… como isso não vai acontecer, nem vou pensar nisso.”

Convenhamos que, na realidade, esta é uma espécie de assombração que me persegue desde tempos imemoriais. Até que descobri o Bullet Journal.

Light bulb moment.

Eureka.

Descoberta da pólvora.

“Mas é mesmo isto!”

“É a minha cara…”

“Isto sim, eu consigo fazer…”

[respira fundo, pausa de segundos para pensar a fundo na coisa]

“Sim, pois, ’tá bem… pode ser mas, não é assim tão simples. Toda esta liberdade e possibilidade de personalização pode ser uma autêntica armadilha anti-procrastinador. Não anti-procrastinação, porque ao mesmo tempo que parece ter tudo para dar certo, esconde verdadeiros perigos e tem tudo para dar errado e se revelar apenas mais uma forma de procrastinar.”

Mas vamos por partes, uma de cada vez (e blá-blá-blá, you know the drill… )

∞ ∞ ∞

O que é o Bullet Journal?

O Bullet Journal, bujo para os amigos, ou agenda-bala, como eu carinhosamente lhe chamo, é a única coisa que dá a aparência de ordem relativa ao meu caos crónico. Ou dito de outra forma igualmente dramática, é aquilo que me impede de bater com a cabeça nas paredes, a não ser que este seja um item numa qualquer colecção*, ou num daily*, weekly* ou monthly*, e eu calhe estar numa onda particularmente produtiva.

*terminologia para o pessoal que está no “meio” do bullet journaling / bujoing, mas não se preocupem que eu explico já de seguida.

Na prática, o Bullet Journal é um sistema analógico de organização pessoal ou profissional, criado pelo Ryder Carroll, adaptável às necessidades de cada um. É o cúmulo da simplicidade – basta um caderno e uma caneta – mas também pode ser uma ode ao rococó elevado ao seu expoente máximo – com um manancial de acessórios, lápis e canetas e réguas e decalques de toda a espécie, mais a obrigatória washi tape, para extravasar e dar largas à imaginação e à nossa capacidade criativa.

Tudo começa com uma chave e um índice:

  • chave: uma espécie de legenda com o conjunto de símbolos que vamos usar para identificar e distinguir tarefas de eventos de notas, e classifica-los consoante se tratem, por exemplo, de questões urgentes, de coisas a pesquisar mais tarde, de temas relacionados com trabalho, família, hobbies, etc.;
  • índice: como o próprio nome indica… é um índice, mas este é diferente do habitual porque vai sendo construído à medida que vamos usando o caderno.

Para além destes dois elementos, há um terceiro que uso muito: as colecções. Estas são secções do bullet jornal onde “arrumamos” tudo o que nos ocorra sobre um assunto em concreto. Há quem os use para registar, por exemplo, os filmes que viu ou quer ver, os livros que leu ou quer ler, os presentes que deu ou quer dar, a sua rotina matinal, o plano de limpezas domésticas ou de destralhamento da casa; também pode servir para reunir ideias para um projecto, ou para controlar o progresso de um hábito que se quer cultivar ou perder, ou fazer um registo do nosso estado emocional e do efeito da medicação no caso de pessoas que estão a passar por uma depressão ou sofrem de alguma condição crónica, por exemplo. O céu é o limite no que toca às colecções, e para alguém como eu que não tem grande necessidade de uma agenda pura e dura, onde aponta compromissos com hora e data marcada, as colecções são a pedra basilar e a grande mais-valia deste sistema.

∞ ∞ ∞

A que tenho actualmente não é a primeira (but who’s counting…?). Já fiz outras tentativas experiências antes, e todas serviram para testar a melhor forma de usar este sistema. Apesar dos falhanços, é mesmo o único tipo de agenda que me vejo a usar, mas mesmo este me provoca alguns calafrios… Alguma resistência! É um hábito a cultivar, todos os dias, um de cada vez, e que exercita vários músculos, entre eles o tal da coragem – neste caso, o da coragem de enfrentar preto no branco o tanto que queremos e temos por fazer. Uma das formas de contrabalançar a frustração e o desânimo potencial que provoca olhar para uma lista de afazeres, é escrever listas de feitos. Dá uma certa sensação de realização apontar tarefas cumpridas, colocar uma cruzinha nos itens, mesmo que se reduzam a algo como “estendi a roupa” ou “pus creme na cara”. Sim… como dei a entender há umas linhas atrás, o bujo dá para tudo e mais um par de botas.

Também já não é a primeira vez que escrevo alguma coisa sobre o bullet journal. Fi-lo antes no blog da Amarelo Torrado, e para não me repetir (nem adiar mais a publicação deste texto, porque tenho sei lá mais quantos à minha espera), podem ir lá ver a coisa explanada com mais detalhe, e inclusive encontram alguns links úteis, em inglês e português, para o caso de quererem explorar a ideia e testá-la. Depois avisem caso tenham decidido avançar, e partilhem como tem sido a vossa experiência. “Façam o que eu digo e não o que eu faço”: este sistema é genial, faz todo o sentido, e não posso recomendá-lo o suficiente.

E happy bujoing!

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3 thoughts on “#5 – Um hábito de cada vez – Bullet Journal

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