#9 – Essa coisa do “sweet spot” – parte III

Parte I e Parte II aqui

9_Cenas e Coisas_9Uma parte já está, que é identificar o que adoro e (acho que) faço bem e me distingue: os padrões que crio a partir de fotos originais minhas. A ideia de usar fotografias numa série de produtos não é nova; o que eu acredito que seja diferenciador, no meu caso, são os padrões, que são necessariamente originais, e são um reflexo da minha obsessão com simetrias.

Tirar fotografias e depois brincar com elas absorve-me, faz-me perder a noção do tempo, e como o tempo é daqueles conceitos tão ilusórios quanto inevitáveis e preciosos, parece-me que estar presente numa actividade ao ponto de não o ter presente, é sinal suficiente de que é algo que somos capazes de fazer por… muito tempo.

Esta parte da resposta ao desafio de identificar o meu “sweet spot” é também pretexto e ponto de partida para uma série de outras coisas de que gosto de fazer, e que construir um negócio como eu quero me vai permitir exercitar, aprender, e pôr em prática: escrever, criar conteúdos de vários tipos e para vários contextos, construir um website, desenvolver a comunicação da “marca”, enfim, tudo o que tenha a ver com o lado mais criativo e visível deste projecto em construção.

Mas falar do lado de que gosto mais nesta quimera, implica necessariamente falar no que gosto menos ou abomino mesmo, como as burocracias, e as contas, e o cálculo de custos, e a definição de preços. E isso leva-me para a outra parte deste processo de identificar o “sweet spot”, porque é um pouco inevitável ter alguma aversão, por mais inconsciente ou irracional que seja, a esta coisa das vendas. É como se fosse um lado “sujo” e é difícil afastar a ideia de que estamos a ser uns vendidos desonestos, muito por culpa dos preconceitos, fundados ou infundados, em relação à figura do vendedor. Verdade seja dita, quando estamos perante uma situação de “hard sell”, que se pode definir como uma tentativa agressiva de nos impingirem alguma coisa, é porque o produto em causa ou não é bom por si só, ou é simplesmente desnecessário. Além de estarmos a ser incomodados, e eu detesto sentir que estou a incomodar, mesmo quando o devo fazer.

A realidade a que não se pode fugir é que, no mundo em que vivemos, e nas cirscunstâncias em que a maioria de nós se encontra, não podemos escapar à necessidade do vil metal. É incontornável. Não deixa de ser um objectivo meu precisar cada vez menos dele, criando um estilo de vida mais autónomo e resiliente e com mais sentido também, mas esse é um projecto a muito longo prazo (a muito mais longo prazo do que inicialmente antecipei, mas sobre esses planos em suspenso falo noutra ocasião). Até lá, resta-me tentar reconciliar-me com os factos do dia-a-dia, e da minha realidade presente, para tentar dar pequenos passos no sentido dessa vida idealizada. Tudo é um work in progress, inclusive (ou sobretudo) nós próprios.

Assim, e porque não vale a pena negar a realidade à espera que ela mude enquanto estamos de olhos fechados, como se fosse um pesadelo que acaba quando acordamos, há que enfrentá-la e fazer o que podemos com o que temos no momento. Para mim, isso implica encontrar uma forma de conciliar a minha filosofia e também a minha natureza, com questões mais práticas. O valor de uma coisa não se reduz a uma etiqueta de preço, mas é essa a linguagem que nos é comum, e que todos falamos, melhor ou pior.

O desenvolvimento de produtos propriamente ditos está em andamento, mas ainda é cedo para falar deles, quer no ponto em que se encontram, quer no ponto em que eu própria me encontro aqui no blog. Note-to-self: um passo de cada vez, mesmo. Só um. E cada um destes textos é mesmo isso. Sou eu a pensar comigo mesma e a registar cada passo, daí enumera-los literalmente. Aqui e agora, importa-me definir o tipo de produtos que quero desenvolver. Que serviços prestam, que mensagem transmitem, o que dizem sobre mim e sobre a minha marca, que marca quero criar com eles, o que é que acrescentam a quem os compra.

Enquanto escrevia o rascunho para este texto nas minhas viagens diárias de comboio, apercebi-me que de alguma forma estes aspectos tornam-se evidentes à posteriori, de forma orgânica, depois de pensar em que produtos queria criar, ainda antes de me preocupar em sistematizar conceitos. Ao reflectir sobre tudo isto, noto que tenho instintivamente uma tendência para pensar em produtos que:

  • eu utilizo, claro, ou que gosto ou gostaria de oferecer às pessoas que me são próximas;
  • são analógicos, i.e., não estão dependentes do acesso a uma tecnologia complexa, digital;
  • contrariam ou procuram contrariar tanto quanto possível a cultura da obsolescência programada, ou seja, não são feitos para terem um prazo de vida limitado e curto como parte do próprio “design”, que é outra forma de dizer que não são feitos para se estragarem e precisarem de ser substituídos rapidamente;
  • promovem uma relação do utilizador consigo próprio (controlem essa mente porca, fáxavor!); este ponto pode parecer um pouco difícil de perceber e de explicar, mas falo aqui de entrarmos em contacto com o nosso lado mais criativo e também mais introspectivo;
  • promovem uma relação mais saudável e natural com os outros e com o nosso meio, sem ser intermediada por gadgets e pela tal tecnologia complexa;
  • servem múltiplas funções, surpreendendo por um lado, e tornando-se mais práticos por outro, reduzindo o desperdício, facilitando a vida, reduzindo também o “ruído” do dia-a-dia e a tralha, e promovendo um dia-a-dia mais simples e tranquilo;
  • além de tudo isto, – do lado prático, ou do valor intrínseco que possam ter, – têm também uma estética que acrescenta alguma coisa, inspira e estimula a imaginação;
  • dêem início a uma conversa ou várias sobre os pontos anteriores.

De alguma forma, quero que os produtos que crio para vender sejam um veículo para levar um pouco de mim aos outros, uma espécie de oferenda e de partilha, uma ponte de ligação. Não sei se isto parece pretensioso ou não, e se é muito ambicioso (ou mesmo uma coisa meio “uhuh e as estrelas e as energias e o amor cósmico e está tudo alinhado…”). Não é com esse estado de espírito que o digo. O estado de espírito aqui é semelhante ao de quando faço alguma coisa de raiz para oferecer a alguém de quem gosto, e que é apenas um veículo, lá está, para demonstrar o quanto gosto dessa pessoa. Simplesmente faz sentido. Aqui tratam-se de estranhos, ou pelo menos de pessoas que começam por ser estranhas, mas fazem parte do mesmo mundo que eu, e se podemos acrescentar alguma coisa de positivo, porque não?

Confesso que da pouca experiência que tive até agora com a Amarelo Torrado, encolho-me sempre quando se trata de dizer preços e receber dinheiro, e esta é uma aprendizagem que tenho que fazer. A minha vontade é de oferecer quando percebo que uma pessoa gosta de alguma coisa que fiz. Mas sei que não pode ser, e não é esse o propósito da coisa ou pelo menos derrota-o logo à partida. E sei também que quem compra, neste tipo de negócios pequenos, locais, pessoais, as pessoas querem genuinamente pagar. Vêem aí uma oportunidade de contribuir para um negócio que tem rosto, que tem mãos, que tem história, e que não se trata duma “máquina” cujo único objectivo é o lucro. Trata-se pois de encontrar um equilíbrio que sirva às duas partes. Mas a definição de preços é toda uma história por si só, e fica para outros carnavais.

E vocês, já pensaram em qual será o vosso “sweet spot”? O que é que vos absorve ao ponto de vos fazer perder a noção do tempo, e ao mesmo tempo vos dá vontade de partilhar com conhecidos e desconhecidos?

The meaning of life is to find your gift.

The purpose of life is to give it away.

Pablo Picasso

 PS: Para ajudar à festa, partilho um artigo que li ontem, e que serviu de mote ao episódio #6 da segunda temporada do podcast Anita no Trabalho: «Developing a Strategy for a Life of Meaningful Labor» (Brian Fetherstonhaugh, Harvard Business Review).

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