#10 – Do artista adormecido

“Todos los niños nacen artistas. El problema es cómo seguir siendo artistas al crecer.”

Pablo Picasso

10_Cenas e Coisas_10Percebo que uma das fontes de ansiedade, um dos motivos para eu procrastinar e hesitar, é a falta de confiança. O medo. Sinto-me sempre como se tivesse que pedir desculpa pela ousadia de achar que tenho alguma coisa de especialmente original e interessante a oferecer, e a veleidade de considerar que alguém a possa querer. Como se fosse presunção ou arrogância minha.

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Por um lado, há um quê de “defeito de género”, por assim dizer. Tenho a percepção, a partir do que observo e leio, que nós mulheres somos condicionadas desde meninas a nos comportarmos e apresentarmos com modéstia, a sermos menos assertivas e orgulhosas, a escondermos as nossas capacidades, os nossos dons, até a nossa inteligência e as nossas opiniões. Claro que avançámos bastante, e hoje não é como ontem e como há 20, 30, 100 anos atrás, mas ser “boa menina” continua a trazer implícita a ideia de alguém bem comportado, conformado, alguém que não levanta ondas, não contraria, não se coloca em pé de igualdade em relação aos seus pares masculinos, não os confronta nem contraria.

Claro que (ou espero que seja claro que) isto é uma caricatura, e portanto uma imagem exagerada da realidade, mas mesmo inconscientemente, sabemos ou sentimos qual o tipo de atitude que é melhor aceite, o que se espera de uma “boa menina”, tenha ela que idade tiver. Como se fosse suposto termos vergonha de ter orgulho, de sabermos e afirmarmos que somos boas em alguma coisa, e devêssemos sempre relegarmo-nos para segundo plano, para uma posição subalterna, “grandes mulheres atrás de grandes homens” e não ao lado ou à frente. Que se lixe o ser “boa menina”.

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Considerações feministas à parte, que isto daria pano para mangas, percebo que não é só isso que se passa. Vivemos numa era, desde há muito tempo, pelo menos desde a Revolução Industrial, em que nos é incutida a todos, mulheres e homens, meninas e meninos, a ideia de que devemos escolher uma profissão para a vida, especializarmo-nos, e entregarmos tudo o resto que nos torna humanos a outros especialistas: cultivar o que comemos, construir uma casa, consertar os sapatos, confeccionar roupa, educar os nossos filhos. E criar arte, esperando que alguém produza por nós a arte que nos diz alguma coisa e fala ao nosso íntimo. Tudo isto é trabalho de especialistas. Ou acreditamos que é, aliás.

É suposto entregarmo-nos ao dever de “ganhar a vida”, em troca de a perdermos com um trabalho que não tem outro propósito que não o de colocar comida na mesa, a cumprir muitas vezes funções cujo sentido temos que inventar para mantermos um fio de sanidade que seja, ao mesmo tempo que tudo isto nos consome a energia e corrói o espírito, e demasiadas vezes corrói inclusive a nossa capacidade de ter consciência disto mesmo, e fazer alguma coisa para o contrariar. O que se calhar acaba por ser melhor. Uma estratégia de auto-defesa, talvez. Ao fim de uma vida a ganhar a vida, resta pouca vida… pouca energia para finalmente descobrirmos quem somos e o que nos faz vibrar.

Escolhemos um “caminho profissional” numa altura em que mal sabemos o nosso nome e depois, quando chegamos ao momento de ter a maturidade e a experiência suficientes para perceber o que queremos fazer, ou assumirmos e afirmarmos o que não queremos, sentimos que é tarde demais.

E tudo isto é triste. Muito triste. Trágico, mesmo. É de uma violência sem tamanho, sobretudo de tão aceite e tida como parte inevitável da vida. “É a vida” dizem-nos, e depois dizemos nós. Mas que vida é esta…? Onde está o V maiúsculo?

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Na realidade, é um pouco como uma caixa de Pandora, que depois de aberta não se consegue fechar. O que se viu não se pode “desver”. Eu acredito, por mais difícil que seja, por mais dissabores que me traga, por maior que seja o mal-estar que cause, que nós não nascemos para isto. Eu não nasci para isto. Ninguém nasceu para isto.

Nascemos para criar, para aprender, para explorar o mundo, não no sentido de uso mas de descoberta. Nascemos para nos relacionarmos uns com os outros e com nós próprios, para nos darmos uns aos outros. E nascemos também para usar o cérebro e usar as mãos para algo mais não carregar em botões.

Todos temos alguma coisa que nos faz vibrar, que nos alimenta a alma, que estimula a nossa imaginação e nos dá a sensação de haver algo maior que nós próprios. A criatividade não é o reduto de especialistas: é aquilo que nos torna humanos, que faz de nós seres sencientes e naturais. A criatividade não é um modo de ganhar a vida, é um dos elementos da Vida vivida com sentido.

Há mil e uma formas de sermos criativos e trazermos “arte” para o nosso dia-a-dia. Não temos que pintar quadros que mereçam um lugar numa galeria ou que sejam avaliados em euros ou dólares ou qualquer outra moeda; não temos que escrever livros para exibir em montras de livrarias ou levarem com uma etiqueta de preço ou receberem prémios. Há arte onde quer que haja vida: na forma como preparamos uma refeição como gesto de cuidado pelos que amamos, na forma como falamos com os que nos são próximos e também com estranhos, no cuidado com que cosemos um botão ou na coragem com que enfrentamos as adversidades ou oferecemos consolo a quem dele precisa.

E há arte também na solidão. Desaprendemos a estar sozinhos, a ruminar, a reflectir, a sós com os nossos pensamentos, ou entregues a uma actividade sem finalidade útil. A utilidade é relativa e subjectiva. Se nos alimenta a alma, se nos acalma, se estimula a nossa imaginação e nos faz sonhar, é utilidade mais que suficiente para se justificar a si mesma.

Evoluímos, se podemos usar esse termo a esta altura do campeonato, como um todo. Não somos só cérebro, nem só intelecto ou só emoção e intuição, não somos uma máquina nem uma ferramenta. A nossa alma, seja o que isso for, é indissociável do nosso corpo. E as mãos são uma extensão e elemento fundamental do que significa ser humano. Elas não trabalham isoladas do cérebro, e os dois órgãos funcionam em simbiose, alimentando-se mutuamente, estimulando-se. Mas para isso é preciso honrá-los aos dois e ao todo de que fazem parte. E é preciso honrarmo-nos a nós mesmos e permitirmo-nos ser humanos por inteiro, e não apenas peças numa engrenagem que nos foi entregue sem a pedirmos.

Seja bordando, pintando, escrevendo, tecendo, dobrando um origami ou fotografando, moldando o barro ou entrelaçando vime, fazer alguma coisa com as mãos alimenta-nos o espírito e fortalece o corpo por inteiro, ao mesmo tempo que cria comunidade e laços com os outros, através da partilha de experiências, de conhecimentos, de dúvidas e receios e conquistas. E não há nada que pague isto e pague a sensação de realização e a confiança que daqui nascem.

E vocês, o que criaram hoje? O que sempre quiseram criar? Apenas para vocês, sem se preocuparem com a utilidade, muito menos a que se mede em moedas e notas? O que vos faz perder a noção do tempo e dar asas à imaginação?

Links para se inspirarem*:

*Peço desculpa por serem todos em inglês; assim que encontrar artigos em português, actualizo a lista (aceito e agradeço sugestões!). “Um dia”, quem sabe, faço a tradução destes, embora essa seja uma “colecção” que cresce de cada vez que passa de agenda-bala para agenda-bala… Eventualmente, talvez faça um texto com o resumo das principais ideias de cada um… bem, mas isto sou eu a “pensar em voz alta”…

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