#12 – A idade dos porquês

Cenas-e-coisas-12-porquê-razão-objectivos-negócio-criativo-persistênciaTem muito que se lhe diga, esta expressão da “idade dos porquês”. Não deveriam ser todas as idades? Há alguma idade em que não haja porquês, ou esta é uma pergunta que é suposto deixarmos de fazer quando chegamos a “uma certa idade”? Não gosto disto. “Me no like”!

Não. Não vou divagar à volta desta expressão (mas podia!). Aqui quero aprofundar o passo 2 desta lista de passos, a tal que uso como mapa geral e ponto de partida para avançar no meu projecto. Recordo que o primeiro passo, sobre o “sweet spot”, deu origem a 3 blogposts, que podem revisitar aqui, aqui e aqui, caso tenham paciência e curiosidade. Mas este segundo passo só vai dar origem a um, pelo menos para já. Promise!

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O segundo passo, nas palavras da Jess Van Den, frisa a importância de “ser obsessiva”, de manter e alimentar a determinação, a paixão, que permitem não desistir de um projecto, em especial nos momentos mais difíceis, quando é mesmo o que apetece fazer. Para isso, é fundamental reflectir sobre qual é o nosso “porquê”, qual a razão e as metas que nos levam a dar início a algo tão difícil e demorado quanto construir um negócio criativo por conta própria.

Podia limitar-me (e uso esta expressão não num sentido pejorativo) a fazer o que gosto como hobbie, um passatempo, algo apenas e só meu e que partilho com o círculo de familiares e amigos, sem qualquer plano ou objectivo em especial. Mas a velha máxima (que se podia chamar “mínima”) de “tempo é dinheiro”, é uma realidade especialmente verdadeira e castradora, que nos rouba tempo para fazer o que gostamos. O valor das coisas é medido em dinheiro gasto versus dinheiro ganho, e é esse balanço que define a forma como podemos ocupar o “nosso” tempo. Mas isto chateia-me, pois claro que me chateia, e romântica que sou, não me dou por conformada com esta postura fatalista.

Ora, a solução é relativamente simples de identificar, apesar da execução ser tudo menos simples. Para ter mais tempo para dedicar ao que gosto, tenho que fazer com que o que gosto seja uma fonte de rendimento (leia-se, rendimento monetário), e não apenas de despesa. O dinheiro gerado desta forma, serve, em última análise, para comprar tempo – embora, como o David Cain reflecte numa das suas crónicas mais recentes para o seu blog Raptitude*, o tempo não seja algo que se possua.

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O meu Porquê é feito de vários porquês, como camadas numa cebola. Imagino que seja assim para qualquer pessoa e qualquer projecto pessoal a que se dediquem contra todas as probabilidades. Quando medimos os prós e os contras entre nos deixarmos estar e não mudarmos nada no nosso dia-a-dia, ou tentarmos fazer alguma coisa de diferente, apesar do insucesso ser um risco muito real, facilmente imaginamos e idealizamos o estilo de vida que vem com essa “revolução”. Pode nunca se concretizar, mas parafraseando o Eduardo Galeano, a utopia é como a linha do horizonte, que se move com cada passo que se dá.

As camadas da minha cebola (daquelas danadas que se devem cortar com um capacete de motociclista na cabeça) são, ou dito de outra forma, quero criar o meu negócio criativo porque:

  • Não só adoro como preciso de ter um “creative outlet”, feito de fotografia, de trabalhos manuais e de escrita, e com muitas, muitas oportunidades para aprender e experimentar e dar largas à imaginação. É 50% do meu sweet spot.
  • Para o poder fazer com o tempo e as condições que gostaria, e de que não disponho nas circunstâncias actuais, preciso de gerar algum rendimento como complemento ao que o meu “day job”, do qual dependo, e, idealmente, substituí-lo gradualmente  (por mais distante e improvável que isso possa parecer, mais vale começar por dar forma a esse sonho, exprimindo-o por palavras atiradas ao vento ou, no caso, ao mundo virtual, preto no branco).
  • Vai permitir-me aproximar-me dum estilo de vida com o qual me identifico mais, com mais sentido para mim, mais de acordo com a minha forma de ser, de estar, de pensar, de ver o mundo (eventualmente hei-de voltar a este tema num blogpost só dele, e isto não é uma promessa: é mesmo uma ameaça para quem estiver desse lado, e para mim também).
  • Quero que a minha mera e insignificante existência tenha algum significado, por mais singelo que seja, para mais alguém, para os que me são mais próximos, para que se sintam inspirados, motivados, e até “autorizados” a perseguirem também eles uma vida que faça mais sentido para si mesmos, mais intencional e satisfatória. Isto corre o risco de parecer presunção minha, mas se calhar é o facto de ter consciência de ser um micro-grão de areia num universo de rochedos e montanhas, que me dá um certo desprendimento e sentido de responsabilidade ao mesmo tempo, talvez… Não sei. Mas não me apetece pedir desculpa por pensar e sentir o que penso e sinto, e a verdade é que, no pouco que estiver ao meu alcance, quero contribuir para que outros percebam que não têm que ficar presos toda a vida a uma decisão, que nunca é tarde para fazer mais do que gostam, e para descobrir o que os move realmente. E isto não só para os que me são mais próximos, sobretudo as crianças-crianças, mas também para quem quer que se cruze comigo de alguma forma, e queira redescobrir a criança que tem dentro de si. Temos um tempo limitado nesta Terra, por isso mais vale dar-lhe algum sentido.

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Foi um exercício esclarecedor e fundamental sentar-me um pouco, mais do que uma vez, e reflectir sobre tudo isto. Perguntar-me “Mas onde raio quero eu chegar? Porque raio me havia de dar para isto, para me meter numa quimera como esta?” Às vezes, ou sempre até, é crucial pormos por palavras o que nos ocupa o pensamento, aquilo com que sonhamos acordados ao longo do dia, enquanto fazemos mil e uma outras coisas, como ideias que andam de um lado para o outro a bater nas paredes do crânio. Para elas acalmarem, e para nós nos ouvirmos a nós próprios com alguma inteligibilidade, nada como apontar no papel. Assentar ideias, como o pó que assenta no solo depois de uma tempestade e deixa o ar mais limpo, e permite ver melhor o que nos rodeia – e a nós próprios sobretudo. É tudo isto que serve de combustível, que nos alimenta e dá energia para persistir, em especial quando só nos apetece baixar os braços e atirar tudo ao ar.

Nada neste processo é linear e previsível, nada se adivinha fácil, tanto que o que é fácil é sentir-me assoberbada e derrotada à partida. Mas se faz sentido e dá sentido, só isso… já é sentido que chegue para persistir e tentar, sem pensar nos resultados. Esses hão-de chegar naturalmente… ou não. Implica também realizar tarefas que nos dão tudo menos prazer, que são aliás a antítese do que queremos fazer, como papeladas e burocracias e contas, e é também por isso que é fundamental manter presente o nosso Porquê*.

*(além de se definirem e cumprirem rotinas para reduzir o tamanho das sete cabeças do bicho, mas falo disso noutra ocasião).

No final, e no meio também, tudo encaixa como peças de um puzzle incompleto, tudo tem e dá propósito, e faz-nos acordar a cada dia com vontade de continuar, um passo de cada vez. Nada, nem tempo nem dinheiro, paga o sentido de realização de nos superarmos a nós mesmos, de construirmos algo de nosso, de contrariarmos e resolvermos as nossas falhas, dia após dia. De podermos pelo menos dizer que tentámos, mas tentámos a sério, com intenção e atenção. E depois? Depois logo se vê.

Bukowski-Find-What-You-Love-Let-it-Kill-You

 

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