#13 – Morning Pages: um hábito com prazo de validade. Uma espécie de balanço.

13_Cenas&Coisas_13Enquanto ligava o computador e preparava tudo para começar a escrever este texto, estava sempre a lembrar-me dum concurso que via quando era miúda, o Juego de la Oca, onde os apresentadores diziam “Prueba superada!” de cada vez que os concorrentes chegavam ao fim de um desafio. Reminiscências com sabor a século XX à parte, é mais ou menos assim que me sinto, sem a parte do entusiasmo televisivo, do ganso e dos prémios, claro.

Hoje foi o 84º dia de Morning Pages – octagésimo quarto dia, assim por extenso, para dar um ar de maior gravidade e solenidade à coisa. Este foi, aliás, um dos “truques” que usei ao longo das últimas 12 semanas, para preencher mais facilmente as três páginas obrigatórias que o exercício prescreve. Ontem mesmo, penúltimo dia do “curso”, cheguei a algumas conclusões sobre a futilidade deste “empreendimento” e que, por si só, servem para demonstrar como o exercício não foi realmente fútil. Eu sei que é contraditório e que, assim de repente, não estou a fazer sentido nenhum… o que por si só é muito adequado se pensar no exercício em causa, e na forma como eu o cumpri.

Passemos então a algumas dessas conclusões ou, melhor dizendo, constatações. Se não estivesse a fazer um esforço para não cair no vício de usar estrangeirismos, diria “insights” (o que é uma palavra que eu gosto muito: é o que se vê ou se percebe quando olhamos para dentro de nós).

A bem da inteligibilidade deste texto, e para aumentar as probabilidades de vocês compreenderem um pouco que seja do que para aqui digo, recordo o que são as Morning Pages ou, melhor, como me propus eu pôr em prática este desafio e com que propósito (para uma versão mais longa, podem sempre revisitar o blogpost original que escrevi no início do desafio).

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O quê e como?

Escrever três páginas por dia, todas as manhãs, à mão, só para mim, sem me preocupar com a possibilidade de alguém vir a lê-las, e sem usar qualquer filtro. Escrever verdadeiramente ao correr da pena sem qualquer esforço para tornar a coisa compreensível, agradável de ler, e sem, aliás, ler nada do que escrevesse durante pelo menos as primeiras 8 semanas (o “curso” deveria durar 12).

Conhecendo-me e sabendo quais são os meus hábitos matinais, e a minha dificuldade em acordar mais cedo do que o estritamente necessário para conseguir chegar ao trabalho a horas, defini que iria escrever estas páginas no comboio, a caminho de Lisboa.

Porquê?

Decidi comprometer-me com este hábito porque tenho muita dificuldade em cumprir rotinas diárias construtivas, e este pareceu-me um bom ponto de partida, tendo em conta que gosto muito de escrever, e que por isso mesmo quero escrever cada vez mais e também melhor. Para isso, é preciso prática. E também porque sinto falta de despejar o caos mental de alguma forma, e escrever, para mim, cumpre essa função.

Eugénio-Andrade-Escrever-Desespero-Reconciliação-amarelo

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E então como é que a coisa correu?

Correu benzinho. Ou digo antes: correu mesmo muito bem. Porque não dar uma palmadinha nas costas a moi-même? Não é todos os dias que mantenho um hábito construtivo durante 3 meses, praticamente, com apenas uns 4 dias em que prevariquei. Uma vez porque não tinha caneta comigo, outra vez porque o caderno tinha acabado e me esqueci de colocar um em branco na mala, e as últimas duas vezes foi este fim-de-semana porque… não me apeteceu. De todas estas vezes, compensei a falha no próprio dia ou no dia a seguir. No caso deste fim-de-semana, digamos que ontem escrevi 9 páginas em momentos diferentes do dia.

Além da sensação de dever cumprido, e comprido literalmente, fiquei com 4 cadernos preenchidos não sei bem com o quê, porque só fui capaz de reler alguma coisa precisamente quando cheguei ao fim das tais 8 semanas de quarentena. Não estava assim tão mal, mas suspeito que dificilmente vou ler tudo. Sei que vou guardá-los religiosamente, não só porque tenho dificuldade em mandar fora estas coisas, e ficam para memória futura; mas também porque fico com arrepios (dos maus) só de pensar em alguém deitar mão à coisa, e conseguir decifrar a minha letra. A única opção seria queimá-los, e… não me apetece.

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Mas e serviu para alguma coisa de mais profunda? Que raio de “insights” foram esses?

Na véspera de terminar o exercício, dei por mim a pensar na ironia: sendo este um exercício para “libertar” o meu cérebro criativo, desbloquear o subconsciente ou o inconsciente, ou fosse o que fosse, dei por mim a cumpri-lo como uma qualquer tarefa numa lista de afazeres, que me deixou mais tensa e fisicamente cansada do que seria suposto, ou do que eu tinha previsto pelo menos. E a pensar que o ter falhado por um dia que fosse me tinha deixado ansiosa, preocupada em compensar a falha fosse como fosse e o mais rapidamente possível, e em como permiti que essa falha me fizesse sentir frustrada, ou como se eu própria fosse um falhanço.

De certa forma, dei por mim a saltitar entre o passado e o presente, a tentar viajar atrás no tempo para compensar uma falha passada, deixando por isso de estar focada no presente, e a distanciar-me ainda mais do futuro como consequência. Não estou a fazer sentido?! Never mind. Não faz mesmo sentido nenhum.

Percebi também, numa espécie de momento de iluminação, que se calhar até faz algum sentido que a Julia Cameron, autora desta coisa das Morning Pages, aconselhe vivamente, ou defina mesmo como regra, que as páginas sejam escritas num ambiente tranquilo, sem distracções exteriores, num contexto que proporcione um mínimo de introspecção e calma. E que, se calhar, por maior que seja a minha capacidade de abstracção no meio de multidões, o contexto do comboio suburbano em hora de ponta não tenha sido o mais indicado…

Nos dias ditos úteis, escrevi as páginas literalmente ao correr da pena, como se estivesse a fazer um sprint: tinha um tempo limitado para escrever um número limitado de páginas. Sabia que não podia adiar o momento de pegar na caneta e no caderno e começar a despejar, nem podia fazer grandes pausas para reflectir, porque tinha que preencher três páginas em cerca de meia hora, sendo que não queria aldrabar escrevendo com uma letra maior do que é costume: a minha letra é pequena, mesmo bastante pequena. Nem queria espaçar as linhas demasiado para reduzir o débito de palavras de outra forma também artificial: é que fica feio, e isso ia mexer-me com os nervos. Além do mais, não podia nem posso simplesmente deitar fora os anos de treino que tive na escola primária, onde a melhor professora que alguma vez tive nos preparou para escrever em papel liso de forma minimamente direita. Seria uma afronta à sua memória, e um desrespeito a mim mesma e aos indícios muito ligeiros de distúrbio obsessivo-compulsivo que eu eventualmente terei. Muito ligeiros, diga-se, porque há quem sofra verdadeiramente com isso, e eu não quero aligeirar o distúrbio. Escusado será dizer que nos dias não úteis, para não dizer inúteis porque isso é muito relativo, tinha tanta liberdade para fazer o que me apetecia, tantos estímulos exteriores (e interiores), incluindo aqui a quantidade de coisas que queria fazer e que não podia durante a semana, que dava por mim a adiar a escrita das páginas, e a fazê-lo mais próximo da hora de almoço só para cumprir calendário, ou mesmo no próximo dia “útil”, como aconteceu neste fim-de-semana.

Ora, no final de contas a coisa correu bastante bem, e são precisamente os aspectos negativos que tornam a experiência positiva e construtiva. Se é para continuar ou repetir? NÃAAAAO!!! As minhas mãos agradecem, e a minha saúde mental também. Mas é mais que certo que quero integrar uma rotina de escrita nos meus dias de alguma forma. Agora sem uma estrutura tão rígida, e sem sentir a obrigação de cumprir uma determinada receita. Preciso de facto de escrever para mim apenas e só, e os benefícios que a escrita, em especial manuscrita, trazem, é um dos assuntos que me fascina e a que quero voltar por diversas vezes, e de várias formas, aqui neste blogue, e também no meu projecto de negócio criativo. Mas tudo isto fica para outros capítulos.

E vocês? Que papel tem a escrita nas vossas vidas, no vosso dia-a-dia? Têm algum hábito de escrita pessoal? Se não, aqui fica um empurrão para começarem (e é em português!): «Os benefícios de escrever à mão», por Maria Paula Daud. E escrevam, pela vossa saúde!

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