#15 – Ser (menos in)consistente

Robert-Greene-Creativity-Discipline-Childlike-Spirit“A criatividade é um misto de disciplina e espírito de criança.”, Robert Greene

Se ainda não deram conta, eu chamo-vos a atenção para um “detalhe”: nesta fase, ainda não tenho nada de muito construtivo para vos transmitir, “construtivo” para vocês, isto é. Não há por aqui tutoriais e listas de coisas para fazerem tipo “as 5 mais”. Nesta fase, estou ainda a tentar nadar na maionese o melhor possível, a fazer um esforço diário e genuíno para me manter à tona, e não me deixar afogar na minha própria ignorância e no meu caos.

Se este primeiro parágrafo fosse um excerto para ser analisado num teste de Português no secundário, haveria várias palavras que tinham que ser referidas na resposta. Como disse noutro post, as palavras têm poder, e dão forma aos nossos pensamentos, ao nosso modo de estar, de agir no dia-a-dia. Mas olhando para mim de fora vejo que, apesar de tudo, e apesar de serem lentos, estou a fazer alguns progressos. E pelo menos a intenção está lá (cá!).

  • “nesta fase” e “ainda”) indica perspectivas de mudança, um estádio provisório, e aponta para a eventualidade de, num futuro próximo ou distante, vir a ter alguma coisa de construtivo e útil para transmitir, que sirva de orientação, de apoio a quem queira dedicar-se ao desenvolvimento do seu próprio negócio criativo, e sente, como eu sinto, que não percebe nada disto – vá, não percebe grande coisa. E “dedicação” é uma das palavras-chave.
  • “esforço diário”) a propósito de dedicação e ignorância, qualquer projecto que seja da nossa iniciativa implica o compromisso com nós mesmos de agir intencionalmente, todos os dias, para fazer avançar o nosso projecto.

É sobre isto mesmo que quero agora falar. É o 3º passo da lista traçada pela Jess Van Den no episódio 10 do seu podcast, e que podem ouvir aqui, ou ler um resumo aqui.

∞ ∞ ∞

“Ser consistente, consistente, consistente.”

Como diz a Jess, e muitas outras pessoas que percebem mais disto do que eu, é fundamental trabalharmos todos os dias, de forma consistente, no nosso projecto. Dedicar uma porção de tempo, um momento do dia, para fazermos alguma coisa, por mais pequena que seja, nesse sentido e com esse sentido. Temos que olhar para o nosso dia, as nossas rotinas, o que temos e queremos fazer, e ver onde podemos encaixar um bloco de tempo, seja de 15 minutos, 30 ou 60, para cumprir tarefas. Se sentimos que não temos tempo, como é frequente sentirmos, ajuda perceber em que é que estamos a ocupá-lo. Provavelmente há momentos que “perdemos” a não fazer nada de jeito. É bem possível que existam momentos assim. Se calhar há também momentos “mortos”, como a viagem de comboio de e para o trabalho, e que podem ser usados de forma mais construtiva. Se calhar podemos abdicar de ver aquela série na televisão, ou de estar no facebook a fazer “likes” ou a ler trivialidades, ou a darmos numa de “serial googler” como eu, a acumular informação que vai apenas aumentar o nosso clutter mental, sem acrescentar grande coisa.

Apesar de tudo, há com certeza pessoas que têm um dia-a-dia bem mais preenchido que o meu, com filhos para cuidar, com quem brincar, e que mesmo assim, conseguem fazer aquilo a que se propõem e levar os seus dias com mais sentido. Trata-se de definir prioridades. Enquanto que dedicar tempo a cuidar dos nossos, dar atenção e apreciar os momentos com a família, estar presente, é de facto prioritário, e está à frente de qualquer outro “projecto de vida”, haverá muitas outras coisas que não. Se calhar a sala pode ficar desarrumada de um dia para o outro, se calhar aquele email pode esperar mais um pouco até ser respondido, se calhar posso ficar um dia sem ver aquele episódio da série não sei das quantas, e guardá-lo para outra ocasião.

É (também) a minha consciência e a vergonha pura e simples que me obrigam a fazer mais e melhor. Uma e outra são catalisadores potentes da acção, da mudança de padrões de comportamento. E é por respeito e amor a mim mesma e aos “meus”, que quero fazer mais e melhor, e que me sinto motivada para o fazer – não num espírito de sacrifício, mas num espírito quase de missão, de dar propósito aos meus dias. Para isso, é fundamental “editar” os meus dias e as minhas rotinas, e eliminar aquilo que não tem qualquer propósito, nem sequer o de descontrair e descansar. Porque não fazer nada é também importante, mas não fazer “nada de jeito”, como navegar no facebook ou no instagram para lá da conta, não cumpre estes requisitos. Está aliás mais do que demonstrado, se não cientificamente, então apenas pela minha própria experiência, que isto é uma “actividade” que corre o risco de não cumprir qualquer propósito, e derrotar qualquer propósito. É tempo verdadeiramente desperdiçado, que causa ansiedade e frustração.

∞ ∞ ∞

Um dos desafios que sinto é o de manter o foco e reduzir ao máximo o risco (muito real) de não aproveitar o tempo que tenho como deve ser. Pelo menos pela minha experiência até agora, regresso sempre à mesma estratégia: escrever. Um caderno, uma agenda, servem como auxiliares de memória e assistentes pessoais. Poupam-nos o trabalho de rever mentalmente tudo o que temos e queremos fazer quando se proporciona, trabalho esse que se torna mais complicado quando o tempo é curto. Registando e planeando por escrito o que pretendemos fazer, partindo o projecto em vários itens, em várias tarefas mais pequenas, podemos aproveitar ao máximo o tal bloco de tempo que dedicamos ao nosso projecto diariamente. A disciplina é uma coisa que se treina, que implica intenção, ao contrário da indisciplina, que resulta do “laissez-faire” ou, como dizemos por cá, do “deixa andar”, da inércia pura e simples, e que tem sido um dos meus pecados capitais, coadjuvado pelo medo e pela insegurança.

Mas eu não estou aqui, não comecei estas Cenas & Coisas, com a ideia de “bater no ceguinho”, sendo que o ceguinho sou eu. Comecei precisamente por ver muito bem o caminho que estava a seguir, e perceber como esse caminho não me estava a levar a lado nenhum. Quando se tem consciência das suas falhas, e se sabe racionalmente e intimamente o que estamos a fazer de errado, a forma como nos estamos a boicotar a nós próprios, não há mesmo desculpa nenhuma para não mudar de rumo. E o Cenas & Coisas nasceu precisamente dessa consciência, como saberão caso tenham tido a paciência de ler outros divaganços por aqui.

∞ ∞ ∞

Para manter o equilíbrio e a motivação, é importante ter presente o nosso Porquê (ver passo #2 num dos blogposts anterior a este), e também celebrar as pequenas vitórias, passo a passo, uma de cada vez, e com um mínimo de equilíbrio, claro. Volto sempre às mesmas palavras mas têm-se tornado uma espécie de mantra: intenção, atenção, sentido, propósito, esforço, reflexão, acção, presença, responsabilidade, e derivados. Há uma expressão em inglês que não consigo traduzir de forma satisfatória, mas que tem tudo a ver com o que tenho tentado fazer com este blog e não só: “accountability”. Expôr-me desta forma é uma estratégia para me obrigar a prestar contas, a manter-me atenta e a assumir a responsabilidade pelos meus próprios actos – perante os outros e sobretudo perante mim própria. E posso dizer que tem estado a dar os seus frutos. Estou longe, muito longe, de me considerar “fora de perigo”, mas até como forma de me manter motivada, é importante ir parando (por pouco tempo!) para olhar para trás e fazer um balanço, e esse tem sido (também) positivo. Podem não ter atingido o ponto de ruptura (nem precisam de chegar a isso), ou o puro desespero que vos leve a uma estratégia aparentemente tão extrema quanto a minha, de se exporem assim, de correrem o risco de caírem no ridículo, mas posso dizer que tem os seus méritos.

Da mesma forma que a inércia é um monstro que se alimenta a si próprio, a acção também é. É quase como uma pedra no topo duma montanha, e que se mantém imóvel até vir uma rabanada de vento ou alguém lhe dar um empurrão, um empurrãozito que seja. E quando começa a rolar, dificilmente pára. Pode bater em alguma coisa e mudar de rumo, mas dificilmente pára. O caminho não é a direito mas faz-se, com avanços e recuos, pausas e tomadas de balanço (se calhar recuos não encaixa muito bem nesta analogia da pedra na montanha, mas agora também não vou… recuar, e refazer). O que é preciso é colocar a coisa em movimento, e logo se vê onde vai parar.

Para registo e memória futura, aqui ficam alguns destaques das minhas pequenas vitórias. Podem ser ridículas para outra pessoa que não eu própria, claro, mas por mais insignificantes que pareçam, para mim são pequenas revoluções.

  • Finalmente, avancei com a impressão em tecido para a linha de produtos que estou a desenvolver, com o objectivo de relançar o meu projecto.
    • Para isto, fiz uma pré-selecção de 16 padrões, e pedi ao pessoal no meu perfil do facebook e do instagram para votar nos seus preferidos. Isto “libertou-me” de alguma forma da tarefa hercúlea de reduzir as opções, e facilitou parte da escolha.
    • Esta forma alternativa de escolher os padrões trouxe coisas boas e inesperadas, como a possibilidade de vir a colaborar com outra pessoa, com quem ainda por cima sinto uma identificação especial, apesar de não nos conhecermos pessoalmente, e isto abre uma série de possibilidades entusiasmantes para mim e espero que para ela também (Olá, C.!). É cedo para falar, não quero ser precipitada, mas isto serve para vos mostrar também a vocês os benefícios de agirmos por instinto, e de nos expormos de alguma forma. Nunca se sabe o que pode acontecer. Até pode não acontecer nada, mas não deixa de ser uma prova de superação, e um exercício para o nosso músculo da coragem.
    • Ao mesmo tempo, acho que ter feito isto também é bom, não só para avançar com mais confiança em relação à escolha de padrões para uma primeira produção, mas também para semear um pouco de curiosidade nos outros, e de me obrigar a mim mesma a ser consequente e a persistir. Afinal, houve bastantes pessoas que se deram ao trabalho de me ajudar a escolher as imagens, que deram um pouco do seu tempo para partilharem a sua opinião e participarem de alguma forma, e isto encheu-me o coração, e enche-me também de um sentido de responsabilidade acrescido em relação ao compromisso que de alguma forma assumi de forma mais pública do que é costume. Quem participou pode já não se lembrar, mas lembro-me eu, e isso é o mais importante.

 

  • Depois de uns dias mais desleixada no uso da minha agenda-bala, voltei a fazer, lá está, um esforço diário para a abrir, e olhar com olhos de ver para a(s) to-do-list(s). Parece tolo, mas causa-me ansiedade ver escrito preto no branco a imensidão de tarefas e passos que tenho pela frente. Não parece tolo, aliás: é mesmo estúpido deixar de abrir a agenda e deixar de a usar por medo, porque os quadradinhos não se vão preencher sozinhos, nem a lista vai ficar mais curta com um passe de mágica, também chamado de “fechar os olhos”. “Maior cego é aquele que não quer ver”, diz o ditado, e só me vou estar a enganar a mim própria se o fizer.

 

  • Tenho andado a bater com a cabeça nas paredes à volta da ideia de mudar o nome da Amarelo Torrado, e mudar também o logótipo, naturalmente. Mas ao contrário do que é costume, quero seguir mais o meu instinto, e não hesitar tanto. Mesmo que erre, maior erro é paralisar e não tomar decisões. Esta á uma decisão que está tomada, o nome está escolhido, e finalmente cheguei a um desenho para o logótipo que me deixa mais satisfeita, com que me identifico, e que começo a conseguir imaginar integrado em tudo o resto. Falo noutra ocasião sobre todo este processo, mas é um passo fundamental para conseguir avançar com o projecto. É apenas a ponta do icebergue, mas é estruturante, digamos.

 

  • À parte o meu projecto, abriu-se também uma nova possibilidade de trabalho que tem potencial para “empurrar” tudo mais um pouco. Além de ser uma possível fonte de rendimento extra (que, por mais pequeno que seja, é fundamental para viabilizar as coisas e dar-me alguma margem de manobra), é um desafio pessoal que me vai permitir também desenvolver competências que posso depois integrar no meu próprio projecto. Não é o espaço nem o momento para entrar em detalhes, até porque ainda está numa fase muito inicial, mas vem na sequência duma proposta “indecente” que fiz há quase um ano, e que eu tinha receio que fosse apenas mais uma oportunidade perdida ou mais um projecto na gaveta. Mais uma forma de exercitar o músculo da coragem. Estou entusiasmada! Mas não muito, que é para não ter uma desilusão muito grande… Mas estou entusiasmada! Mas pronto, tento não estar muito que eu já sei como estas coisas são, e depois a montanha acaba por parir um rato, e eu fico a sentir-me frustrada… Mas é uma pequena vitória a ser celebrada, e a comprovação de como dá frutos ter iniciativa, e exprimir as nossas ideias por mais “fora” que nos possam parecer, ou mais medo que se tenha de não serem entendidas pelos outros. Só por isto, já vale a pena.

Hei-de voltar ao tema noutras ocasiões… mas não por uma questão de consistência (ou não da consistência de que falei aqui). E vocês, têm alguma dica para partilhar, uma estratégia que funciona com vocês, alguma ideia revolucionária? Palmadinhas nas costas são bem-vindas, mas calduços precisam-se! Com meiguice, fáxavor.

 

 

 

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