#16 – Falar, a.k.a., o meu calcanhar de Aquiles

16_Cenas e Coisas_16Vários factores contribuíram para dar por mim a escrever sobre este meu calcanhar de Aquiles. Um título alternativo para este texto, aliás, podia ser “A tempestade perfeita”.

  1. O passo 4 da tal lista que tenho vindo a explorar é, precisamente, “Falar sobre o teu projecto a toda a gente”. Também podia traduzir por “contar a toda a gente”, mas para efeitos dramáticos, “falar” encaixa melhor aqui.
  2. Um dos elementos recorrentes em tudo o que é blog e website e o camandro, que trate desta coisa da presença online de um negócio criativo, é a criação de uma newsletter e tudo o que isto envolve. Tendo em conta algumas questões, questões essas que refiro num outro texto que está em linha de espera, tenho reflectido bastante sobre o falar e comunicar usando esta via.
  3. A Allison Marshall (wonderlass.com), que fala que se desunha com uma energia contagiante, recomenda falarmos em voz alta com nós mesmos, o que me fez perceber (mais uma vez) que eu gosto tão pouco de falar, mas tão pouco, que nem comigo mesma me imagino a fazê-lo. Os lábios ficam cerrados em tensão, e as palavras não saem. No meu cérebro, sim, farto-me de falar sozinha, mas daí a verbalizar a coisa…
  4. And last but not least, num dos poucos podcasts que sigo religiosamente, Anita no Trabalho, fui brindada com um desafio que me deixou a modos que em pânico. Tudo por causa desta minha bocarra em forma de dedos com bicho sarapinteiro, e que num momento de loucura mais ou menos temporária, decidiu deixar um lençol comentário a um episódio anterior. Ou talvez não tenha sido um momento de tanta loucura assim… Ou não tão temporária quanto isso…? Hmmm… I wonder. Mas já lá vamos.

Comecemos pelo início, e este início não é o ponto 1: é o início da minha já longa história de aversão a falar em público. Sendo que para mim, duas ou três pessoas já é uma multidão. Pronto… três ou quatro.

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É possível que o início recue até ao momento em que comecei a ficar cada vez mais auto-consciente de um ligeiro-ligeiríssimo defeito de fala que tenho, documentado pela primeira vez, en passant, numa avaliação que tive na escola primária.

Eu adorei a primária – gostei mesmo muito da escola e de ser estudante em geral, anos de faculdade incluídos – mas guardo estes primeiros anos com muito carinho. Uma das coisas de que me recordo sempre, sobretudo por contraste com o chamado 1º ciclo actual, é o facto de não ter tido notas nem testes como hoje é comum e aceite. Nunca sofri a ansiedade que geram, o medo de falhar, a aversão que criam à escola, e estou convicta que esse foi um dos factores fundamentais para ter preservado o meu gosto por aprender até hoje, e terá sido igualmente importante para o “sucesso” escolar que tive ao longo dos 20 anos seguintes. Em vez de avaliações quantitativas, havia a avaliação qualitativa que a professora fazia diariamente, mano-a-mano, e também análises periódicas que incidiam sobre os mais diversos aspectos e dimensões do desenvolvimento de uma criança, entre eles a fala.

Na altura, e ainda me recordo porque os meus pais guardam tudo, e pude reler já adulta, uma dessas análises referia essa “pequena” dificuldade, mas o prognóstico era bom: com o tempo, haveria de corrigir a minha dicção dos sons s e x. Não se trata exactamente de “sopinha de massas”, mas é um tipo de ceceio ou sigmatismo (é esse o termo técnico!) que se nota sobretudo no final das palavras (como em “das palavras”, que soa como “dax palavrax”). Na realidade, e caso o assunto vos interesse porque têm o mesmo problema ou conhecem alguém próximo que tem, existem formas de corrigir, em criança e em adulto, e que dependem do tipo de ceceio que se tem. Mas eu nunca o fiz.

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Não sei o que veio primeiro, mas a minha timidez adolescente e juvenil não será alheia a isto. Ela sim, atenuou-se com o tempo, e agora percebo que o que sou é mesmo introvertida (mas sobre isso, falo noutra ocasião… provavelmente). Quer na escola, quer na faculdade, nunca tive muitas oportunidades para praticar o falar em público. O que na altura me pareceu uma bênção, agora percebo que não foi, e fez-me falta o tratamento de choque. O exemplo mais crítico foi quando defendi a minha tese de mestrado. Lembro-me vagamente de ter conseguido falar ao ponto de ter tido uma boa nota, mas lembro-me muito melhor de como estava: ansiosa, a transpirar copiosamente, corada de tal forma que conseguia ver o vermelho das minhas bochechas, com o corpo a entrar em colapso sem saber onde se enfiar, e com umas dores de barriga que parecia que estava a ser esfaqueada e que me deixavam em pânico com as perspectivas da coisa dar… Bem. Vou poupar-vos, a vocês e a mim, a uma descrição mais gráfica, mas já dá para imaginar.

Ainda durante a faculdade, tive também a oportunidade de participar numa conferência nos Açores, para falar sobre um tema que tinha tudo a ver com a minha área de estudos predilecta, mas por culpa minha – procrastinação, incapacidade de tomar decisões, falta de preparação para falar em público, medo – correu para lá de mal. Mesmo que, para quem tenha assistido, a cena tenha sido apenas sofrível, para mim foi um falhanço absoluto, um desastre completo, um daqueles episódios que recordo sempre com vergonha e arrependimento, e que na altura ajudou a perceber que dificilmente teria uma carreira como investigadora em História: não só pelos motivos óbvios para quem conhece os meandros da investigação em ciências sociais e humanas em Portugal, mas também porque implicaria trabalhar e muito nas minhas capacidades oratórias, digamos.

Mas não tive só más experiências! Assim que me lembre, recordo-me de duas boas. Acho mesmo que a lista é só de duas… Durante a licenciatura, trabalhei em part-time numa empresa que realizava actividades pedagógicas para crianças, à volta da ideia de “ciência divertida”. Durante uns meses, dei uma aula por semana, de uma hora, a miúdos do primeiro ciclo, e adorava. E acho que eles também, por mais que tenham conseguido frustrar os meus planos para as aulas, claro, mas isso fez parte da experiência, e acabaram por me ensinar mais a mim do que eu a eles. Foi um exercício fantástico, e a minha paciência e capacidade de lidar com a frustração ganharam muita ginástica, diga-se.

A outra experiência positiva foi também durante a faculdade, com um curso livre para o qual fui convidada pelo meu orientador de tese. Já não me recordo quantas sessões ficaram a meu cargo, talvez umas duas, mas gostei muito da experiência. O ambiente era informal e tranquilo (teve lugar num museu), com participantes adultos de idades diversas, e sentia-me muito à vontade com o tema, abordado de forma limitada, o que ajudou bastante neste caso.

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Isto tudo para dizer que abomino falar em público, e que não é de agora. Isto é particularmente verdade quando se trata de transmitir alguma coisa “minha”, seja ela qual for. A palete de sintomas é sempre a mesma, e resume-se a um instinto de fuga agudo. No momento, é como se estivesse em duas realidades paralelas: a minha boca estará a dizer alguma coisa, enquanto alguma parte do cérebro se questiona “Mas que raio podes ter tu para dizer que alguém queira ouvir? Foge! Rápido! Deixa de fazer de conta que percebes alguma coisa disto, e foge que a malta – toda – agradece!”.

Portanto, quando li e leio o passo 4 da lista da Jess Van Den, o primeiro pensamento foge sempre para “Ah! Aguenta que ainda não é altura.” E é verdade, pelo menos por enquanto, que ainda não é altura. Depois de ter lançado a Amarelo Torrado, e de ter feito algum esforço para divulgar entre conhecidos e desconhecidos, agora que estou em processo de reformulação de todo o meu projecto de negócio criativo, ainda não cheguei a um ponto em que sinta um mínimo de confiança para falar sobre ele. A ideia é que chegue a esse ponto, e nessa altura vou mesmo ter que pôr a boca no trombone. Hão-de ser várias alturas aliás, à medida que for avançando e tendo alguma coisa de mais concreto que as pessoas possam avaliar, e que lhes permita perceber qual é a minha ideia.

Este blog é ele próprio um exercício de articulação de ideias. Entre outras coisas, claro. Apesar de ser por escrito apenas e só, uso-o como laboratório e também como espaço de reflexão e de organização, o que me vai permitir (façam figas!) perceber e desenhar melhor a história que quero contar com a minha marca. Todo este processo é fundamental para ser capaz de falar com mais confiança sobre o projecto, de viva voz, e também para o poder desenvolver de forma coerente em todas as suas dimensões, desde o logótipo e a embalagem, à comunicação nas redes sociais, e tudo e tudo e tudo.

É aqui que entra a newsletter, por exemplo. Não há projecto online que não tenha a sua (eu própria usufruo disso mesmo), e que use a newsletter como forma de divulgar produtos e serviços, de encontrar e fidelizar clientes, criando uma relação com os leitores.

A verdade é que recentemente fiz uma “limpeza” impiedosa à minha caixa de correio, e além das muitas centenas de e-mails que eliminei para todo o sempre (pelo menos da minha vista), também cancelei a subscrição de não sei quantas newsletters de que já nem me lembrava, se não pelo transtorno de ocuparem espaço na caixa de entrada. E dei por mim a pensar que não quero ser esse projecto, esse que cativa subscritores não sabe bem como, mas depois só lhes causa transtorno e não acrescenta nada de positivo e construtivo aos seus dias, por menos palpável que seja.

Confesso que gosto muito da ideia de criar uma newsletter associada ao meu negócio. Mas não a quero usar como forma de venda por si só. Quero que seja uma extensão de mim e da minha marca, claro, e que faça eco das coisas que me inspiram, da minha personalidade e forma de estar e pensar, e que seja mais uma forma de interagir com quem está do lado de lá, quase como um blog ainda mais pessoal. Da mesma forma que abomino falar em público, e que me retraio na altura de abordar alguém seja pelo que for, também não gosto da ideia de invadir o espaço alheio, mesmo que virtual, e incomodar. O mínimo, é oferecer alguma coisa de útil e com sentido para quem subscreve e!, muito importante, fazê-lo na dose certa.

∞ ∞ ∞

Tudo isto implica sair da minha zona de conforto. Como já terão percebido, a minha zona de conforto é recatada e muito pouco povoada. E tem chocolate, claro! O que me leva (a história da zona de conforto e não o chocolate, entenda-se) ao outro factor que contribuiu para agora estar aqui a carpir as minhas mágoas sobre falar em voz alta.

Ora, no episódio mais recente do podcast Anita no Trabalho, sobre zonas de (des)conforto, a Billy e a Eli tiveram a “amabilidade” (e sim, as aspas são de propósito!) de me desafiar a uma conversa com elas. O mote? Elaborar sobre uma pequena parte do comentário que deixei a um episódio anterior, em que atirava para o ar a ideia de criarem uma linha de apoio para procrastinadores em recuperação. Digo “uma pequena parte” porque, como facilmente imaginam, o meu comentário era um lençol. Só que eu às vezes digo e escrevo a primeira coisa que me vem à cabeça… É claro que antes de a expressar, ela provavelmente já teve muito tempo a marinar no cérebro (Freud explica). É precisamente por estas e por outras que tento conter-me na altura de falar seja de que forma for, mas o meu filtro tem vida própria e dá nisto. Escrever um comentário num post do facebook parece ser uma coisa relativamente segura, mas neste caso, nem tanto… É que no recato do meu lar, sou muito corajosa: falar com o teclado ou com a caneta é relativamente fácil e até natural para mim, e praticamente inofensivo…

Mas pensei, pensei, e voltei a pensar, e honrando o compromisso que assumi comigo mesma, e que este blog representa, aceitar o desafio é uma oportunidade de sair da minha zona de conforto e exercitar o tal músculo da coragem. Sair… a pontapé, quase, porque encolho-me só com a ideia de falar assim, neste contexto, ainda por cima quando acho que não vou ter grande coisa para dizer. O que provavelmente vai provocar-me um ataque de ansiedade, que por sua vez despoleta um de verborreia, e a coisa não vai ser bonita. Não vai!

Digamos que para não continuar a pensar (muito) em tudo isto, aceitei o desafio há coisa de 1 hora (dependendo do tempo que demorar a acabar este texto, iniciado há dois dias atrás… acho eu). Até a coisa se proporcionar, espero que as Anitas tenham oportunidade de ler tudo até ao fim, e reflectir muuuito bem sobre se querem mesmo meter-se nisto, ou se o melhor é fazerem de conta que não se passou nada, “amigas como dantes”, e adiante. Pelo sim pelo não, deixo umas pistas aqui e ali a ver se vêm cá parar, para não ser eu a espetar-lhes com outro lençol, e assim conseguir dar-lhes toda a informação que possa ser relevante para decidirem em consciência. (Olá, Billy e Eli! Sejam meiguinhas! Sim…? 😉 )

É que por mais doloroso que eu imagine que isto possa ser (e corre o risco de ser para todas as envolvidas), percebo que chega um momento em que temos que “walk the walk” e não nos podemos ficar sempre pelo blá-blá-blá, e pelo “um dia” e o “agora não”. Isso da segurança e da zona de conforto está muito visto, e eu quero realmente enfrentar os meus medos. Assim, de peito aberto, como se fosse muito destemida. “Finja, finja, até que atinja”, é isso?! Deve ser.

PS: É irónico que um texto onde divago sobre a minha relação conflituosa com o falar, seja um dos mais longos do blog…

 

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