#17 – Um hábito de cada vez – Bullet Journal – (Tomar) Balanço e (dar) dicas

Se a relação que tenho com agendas fosse um status no facebook, seria “É complicado”. É uma relação de amor-ódio, com muita culpa e auto-recriminação à mistura: necessária, indispensável, mas conflituosa e feita de altos e baixos. Como com outros hábitos – dos bons – tenho consciência que é preciso disciplina e persistência.

Já tinha dito antes que a agenda-bala é o último e único tipo de agenda com que consigo ter algum tipo de relação. O Bullet Journal é o equivalente DIY dos planners, construído à medida das necessidades, rotinas e personalidade de cada um. A flexibilidade do sistema é o seu ponto-forte e pode ser, ao mesmo tempo e se não tiver mos cuidado, o seu ponto-fraco. Se, num planner comum, é fácil sentirmo-nos condicionados e assoberbados e frustrados com a estrutura rígida que tem, com o bujo, é fácil perdermo-nos com as possibilidades de personalização, e ficarmos paralisados perante o nível de criatividade que alguns bujoers atingem, tornando as suas agendas-bala autênticas obras de arte.

Este último ponto já não é um problema para mim. Defini há algum tempo que a minha agenda-bala tem que ser o mais simples e minimalista possível. O desafio é mesmo, por um lado, a forma como a organizo ou, aliás, como a uso para me organizar, e por outro, cultivar o hábito de a usar diariamente, mas usar mesmo – não me limitar a andar com ela na mala a passear, nem a agarrá-la e abri-la.

Uma das grandes vantagens do sistema é cada nova agenda ser uma oportunidade de corrigir erros, e de experimentar novas estratégias. É uma oportunidade de aprendizagem que dá espaço para perceber o que funciona ou não, e a qualquer momento fazer as alterações necessárias, seja no início ou a meio de um caderno. O melhor momento é quando chega ao fim e temos que preparar o próximo. Tal como o início de um novo ano representa um recomeço, também acontece o mesmo com um novo mês, uma nova semana… um novo dia. No meu caso, esse recomeço é o início de Julho. Até ver.

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Ao contrário do que tem sido costume, decidi preparar a agenda para Julho e para os meses que se seguem com mais atenção e cuidado. Usualmente, tenho dificuldade em olhar para lá de uma semana ou de um dia, até, e este é um ponto em que tenho que melhorar.

Com esta nova agenda, tento resolver o que não funcionou com a anterior e o que podia ter funcionado melhor, e experimentar algumas coisas diferentes. Mas como com qualquer sistema, só funciona se o usarmos de forma consistente.

O que não funcionou na agenda anterior:

– O caderno que usei não foi feito de propósito para este fim. É com encadernação japonesa, o que quer dizer que não abre completamente e não se mantém aberto, o que dificulta a utilização, além de ser de capa mole.

– É A5. Apesar de ser um bom tamanho para transportar na mala, acaba por ter demasiado espaço para dar largas à imaginação. É um bom tamanho para escrever livremente mas, para organização e planeamento, pelo menos no meu caso, menos é mais. Há que encontrar um equilíbrio entre liberdade e contenção, e aqui é mais avisado restringir o espaço disponível.

– Por falar em restringir, outra coisa que não funcionou (como suspeitava, aliás) foi usar a agenda-bala em toda a sua glória, i.e., com índice, chave, monthlies, weeklies e dailies, year at a glance, listas de afazeres e colecções para todos os gostos.

Assim sendo, para Julho, optei por pensar e fazer a minha agenda-bala de raiz com as seguintes características:

– Formato A6, com capa rija e encadernação “tradicional”, para ter rigidez suficiente de forma a poder usá-la sem precisar de nenhum apoio extra, poder transportá-la mais facilmente e manter junto a mim, pronta a usar a qualquer momento, e poder escrever sem fazer qualquer esforço extra para a manter aberta. Este tipo de encadernação também permite ter mais folhas que os cadernos que tenho usado, o que quer dizer que vai durar mais tempo e reduzir a necessidade de “transportar” informação de um lado para o outro.

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– Tem dois marcadores em tecido, colados no interior da lomba, para ser fácil saber onde fiquei e abrir onde quero a qualquer momento.

– No final, tem uma bolsa e um envelope para guardar listas que preciso de mover de um lado para o outro (como listas de compras e despesas), e para recibos, facturas e papeladas importantes que preciso de ir guardando ao longo de um mês, pelo menos até registar na lista de despesas, arquivar em casa de forma mais definitiva, ou usar.

– No início, tem uma folha tripartida que vai servir para (res)guardar uma outra folha dobrada, onde quero registar objectivos, planos e intenções a curto, médio e longo prazo. Desta forma, posso transportá-los facilmente para outra agenda quando esta chegar ao fim, e mantê-los sempre presentes e actualizados sem ter que me repetir e sem se perderem em sei lá quantas agendas.

– Incluí uma aba amovível que encaixa no envelope colado no interior da contra-capa, e foi aqui que escrevi a chave, e também uma espécie de “manual de instruções” e meia-dúzia de “desafios/intenções” que quero ter presentes diariamente. Este formato permite-me e obriga-me a ver esta informação sempre que abro a agenda.

A ideia com esta nova agenda-bala é usá-la como base para a organização e o planeamento diários, em vez de ser usada “para tudo e mais alguma coisa”. Este “para tudo e mais alguma coisa” fica para outros dois cadernos, estes sim A5. Um deles é para escrever textos longos, seja para o blog ou para outra finalidade qualquer, ou apenas como diário. Outro, é para listas e colecções relacionados com os meus projectos pessoais. A agenda-bala propriamente dita é este caderninho A6, que quero manter o mais simples possível – excepção feita à primeira página de cada mês, onde provavelmente vou dar mais largas à imaginação e ao meu lado mais criativo e feminino, com alguns detalhes decorativos, uma frase inspiradora e os objectivos mais gerais para o mês.

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A inauguração desta nova agenda serve também para me lançar ao desafio de cultivar o hábito de a usar diariamente, mais uma vez mas agora com espírito renovado. Para isso, defini algumas regras ou chamemos-lhe antes “linhas orientadoras!, que têm como objectivo a utilização consistente do bujo em si mesmo, e também a adopção de hábitos mais saudáveis e com mais sentido, que me ajudem a manter o foco e a construir um dia-a-dia que me faz sentir bem comigo mesma. Alguns deles são:

  • criar antes de consumir: isto é uma referência ao vício de consultar email e redes sociais antes de tudo o resto, e depois acabar por me dispersar entre leituras (é uma espécie de reflexo condicionado/chucha); assim, todos os dias à noite, desligo o wifi do telemóvel, que uso como alarme para acordar, e só o ligo depois das 10 horas da manhã, altura em que já cheguei ao escritório, já produzi alguma coisa e já organizei o meu dia (mais ou menos); em alternativa, uso a viagem de comboio para abrir a agenda e recordar ou registar o que tenho para fazer, e também para escrever (este texto por exemplo).
  • abrir a agenda todos os dias de manhã e à noite;
  • registar toda e qualquer despesa que faça;
  • uma vez por semana, ao Domingo de preferência, dedicar um tempo a fazer o balanço da semana, e a planear a semana seguinte.

Tenho muitos outros desafios e muitas muitas intenções, mas estou a tentar simplificar, e também não posso partilhar tudo-tudo, certo? E vocês agradecem, imagino…

∞ ∞ ∞

Uma espécie de anexo:

Dicas para pessoal tentado a adoptar o sistema do Bullet Journal

 

Ainda estou longe de me considerar apta a dar grandes conselhos seja a quem for, sobre como construírem e usarem a vossa agenda-bala. Se porventura alguém que estivesse tentado a experimentar o sistema me perguntasse alguma coisa, partilhava as seguintes dicas, do ponto de vista de quem continua a experimentar e a tentar perceber o que funciona para si:

– Não se deixem assustar pelos bujos dos outros, nem se sintam intimidados pelo nível de complexidade ou de criatividade que vêem na internet: o importante é adaptarem o sistema às vossas necessidades e não serem vocês a adaptarem-se ao que imaginam que o vosso bujo deve ser. Pensem em que rotinas têm, quais os vossos objectivos e preocupações a curto, médio e longo prazo, e de que forma funciona a vossa mente. Preferem uma estrutura mais rígida ou mais flexível? São mais ou menos visuais? Têm reuniões profissionais com frequência, ou filhos pequenos com uma vida social muito preenchida, ou um projecto pessoal a que se querem dedicar com mais afinco ou que precisa da vossa atenção? Precisam de espaço para desenhar e rabiscar e decorar, ou precisam antes de ter algo simples e despojado? Em que circunstâncias é que usam ou querem usar a agenda (só em casa, sentados a uma secretária ou no sofá, ou nos transportes públicos, p. ex.)?

– Se o esquema que decidiram adoptar não funciona como antecipavam, não desanimem nem desistam. O bom do sistema Bullet Journal é que é completamente flexível e adaptável às vossas necessidades, sejam elas quais forem, seja em que momento fôr (porque as nossas circunstâncias mudam, e a agenda pode e deve reflectir isso mesmo). Encarem a vossa agenda como uma experiência, um “work in progress”, uma ferramenta que se molda a vocês, e não uma caixa onde são vocês que têm que encaixar.

– Tentem perceber que vícios de comportamento ou armadilhas colocam a vocês mesmos, que vos afastam do uso diário de uma agenda, e ataquem esses vícios e armadilhas através da forma como a organizam. Um exemplo: ao colocar a “chave” no início do caderno, tornava-se mais difícil ter presente que símbolos usava e para quê. Ao colocá-la numa aba desdobrável (e simplificando-a), é mais fácil respeitá-la e usá-la de facto.

– Finalmente, dêem-se um desconto e sejam gentis convosco próprios. Não nascemos com manual de instruções, nem nos entregam nenhum para cada fase das nossas vidas, sobretudo para esta coisa da fase adulta. Da mesma forma, cada um de nós tem os seus desafios, as suas manias, os seus anseios e desejos e idiossincrasias. Em caso de dúvida, fechem os olhos, respirem fundo, e depois recomecem. E simplifiquem. Um caderno e uma caneta, e têm o mundo nas mãos.

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